Pequena covardia

Outro dia eu tive vontade de ligar para um menino. Seria um telefonema simples, daqueles que a gente dá para amigos íntimos ou casos ou namorados. Algum comentário sobre como foi o dia, o que está vendo na TV, que livro está lendo.

Se eu tive vontade de ligar, claro, vocês devem se perguntar por que diabos eu não liguei. O menino é legal. Eu sou legal (pelo menos do ponto de vista nosso) e provavelmente ele gostaria de receber um telefonema para saber como foi o dia dele.

Só que eu não liguei. Por um motivo simples. A gente não pode perguntar como foi o dia para quem ainda não é nem amigo íntimo, nem caso, nem namorado. Essa é uma espécie de lei do mundo que eu não sei por que foi inventada.

É preciso tempo para poder perguntar como foi o dia, uma coisa tão do bem. Do fundo da minha covardia, pensei que ele poderia achar que eu sou louca se ligasse, carente, stalker e esses outros adjetivos que a gente usa por pura covardia.

O resultado é que eu não liguei. E eu e o menino perdemos a chance de ter para quem contar como foi o nosso dia. Uma pena.  (Por Nina Lemos).