A melancolia da Copa

Por Nina Lemos

Copa do Mundo sempre me angustia. Desde criança. Eu sei, era pra eu ficar feliz, assim como boa parte do país. Mas o pior é que a minha angústia da Copa não tem nada a ver com o resultado dos jogos.

É a angústia de uma excluída (que adora fazer papel de vítima, como vocês podem perceber). Mas acontece que eu não gosto de foguete, de apito nem de gente berrando. Eu sou fóbica. Tenho medo das comemorações que reúnem multidão. Fico tensa. Acho que vai rolar um arrastão. Ou que um foguete vai cair em cima de mim.

Eu sempre fui assim. Desde que eu lembro de Copa, nunca foi uma lembrança boa. Tá, pode ser trauma de infância. A primeira lembrança que eu tenho de Copa vem da de 78 e é muito nítida..Lembro do meu pai dando um soco na parede. Isso porque duas tias entraram na minha casa vestidas de verde e amarelo e gritando: “Brasil” e ele ficou puto, mais muito puto. Sim, indignado com a ditadura militar, ele torcia fervorosamente. CONTRA.

Como eu poderia pegar gosto pela Copa se a primeira coisa que aprendi é que às vezes é necessário torcer contra?

Depois veio a de 82. Meu pai torceu a favor. E eu torci contra. Não era por nenhuma razão política. É que eu já havia adquirido fobia a foguetes e carros correndo na rua (e eu só tinha 11 anos). Com o tempo, não melhorou. Quer dizer, não torço contra. Até vejo os jogos. Mas quando vejo a cidade de verde e amarelo sinto angústia. Eu não tenho o mesmo entusiasmo deles. Não gosto daquele clima de feriado.

E ainda tem a passagem do tempo, claro. Em cada Copa sei mais que quatro anos passam rápido. OK. Não tem o menor cabimento entrar em viagem existencialista por causa de Copa do Mundo. Mas eu sou assim mesmo. Não tem jeito. Eu não consigo matar a França. Sou nouvelle vague. E isso às vezes não tem nada de bom.