Quero demitir o Jim Jarmusch!

Há muitos meses o Jim Jarmusch vem roteirizando a minha vida. Claro, eu devo ter feito o convite de alguma forma inconsciente. Aquilo que sempre dizem: “cuidado com aquilo que você deseja”. Em algum momento, provavelmente, meu eu interior quis que isso acontecesse.
O que se viu. Dias em preto e branco, conversas surrealistas, diálogos bons e curtos, muita fumaça e aquela sensação de angústia lá no fundo, parecida com “Estranhos no Paraíso”, quando eles viajam horas para chegar até um lago famoso. Neva pra caralho. Eles saem do carro, olham e dizem algo do tipo: “é, legal”. “É, a gente viaja e não muda nada”.
Visitei vários lagos com esse espírito nos últimos meses. Lagos, bares, casas de pessoas. Até durante uma semana de moda eu consegui vagar com postura jarmuschiana. O cara é bom de roteiro, meu! Colocou até um taxista louco que confundiu um amigo punk com o Dinho Ouro Preto em uma cena. Em outras, o telefone tocava. Era a Clarah. E uma de nós sempre estava dentro de um táxi, passando em caixa eletrônico para pegar dinheiro. Que mania que ele tem por táxi!
O Jim colocou também encontros com exs, tipo em “Flores Partidas”. Foram cenas bonitas, bonitas mesmo. Mas eu acordei um dia e decidi demitir o Jim Jarmusch. Descobri que precisava apreciar alguns dias de sol, brincar com umas crianças, mergulhar (os mares nos filmes do Jim são sempre congelados). Agora, não sei se ele vai aceitar a demissão ou continuar trabalhando contra a minha vontade. Também não sei quem vou convidar para roteirizar os outros capítulos. Só sei que não quero o David Lynch!
(Nina Lemos)
Domingo no campo da maldade

Você está linda meio dia. Salto alto, cabelo escovado, modelo perfeito, maquiada. É um casamento no campo e você está realmente incrível e sorridente. Evento familiar no qual você comparece por vontade própria dando o melhor de si.
_ Até que aquele menino é bonitinho, você diz.
_ Tá bom pra você, porque ele também é o problemático da família, sua mãe diz.
E você linda, meio dia, salto alto, cabelo escovado, modelo perfeito, maquiada, nenhuma droga no corpo a não ser a nicotina e o café, acaba de ser comparada com um esquisofrênico que já foi internado em uma clínica e não consegue trabalhar (coitado!). Você, que se sustenta há mais de dez anos, que já lançou livros, plantou árvores, cuidou de doentes e compareceu a todos os enterros da família e segurou a mão de todos. Mães sabem ser injustas. E a vida também.
(Nina Lemos)