Ai, que bom não ser tão importante..
Tem uma época da vida em que a gente acha que tudo o que acontece é por nossa causa. É uma espécie de cegueira juvenil absolutamente narcisista que nos faz pensar que se ele está com a cara amarrada, é por causa da gente, claro. Se o nosso chefe falou rapidinho sobre um assunto, claro, a culpa é nossa..
Passar pela cabeça que as pessoas têm outros problemas é uma coisa que em certa época da vida absolutamente não existe.
Lembro dos meus surtos de adolescente. Quando eu encanava muito com a roupa que estava vestindo (ou o cabelo,ou o sapato,ou a minha própria pessoa em si) a minha mãe dizia: “as pessoas não prestam tanta atenção assim em você,nina”. Estava certa. Lembro que na mesma época um amigo tinha medo de entrar em um bar para comprar (o que mesmo? Acho que cachaça) porque pensava que todo o bar iria parar e falar: “olha só aquele garoto de cabelo espetado”.
Não, ninguém repara assim na gente.
Sim, as pessoas têm mil problemas que não têm absolutamente nada a ver com a gente. E nós mesmos temos problemas que não têm a ver com ninguém nem com nada.
Ok. Estou falando o óbvio. O óbvio ululante. Mas é que acabo de receber uma foto minha com 16 anos. Bateu uma melancolia e um alívio enorme por ser adulta. É a vida.Ou melhor.A roda viva.
PS. E esse texto não tem importância alguma. O que importa hoje é que o Fidel renunciou. Sim, isso é importante de verdade.
(Nina Lemos)
O poder da imprensa
Um trovão enorme no meio da tarde. Elas ao telefone
- Vai cair maior chuva.
- Vai? Você leu onde?
- Li? Não, menina, um trovão enorme, acabei de escutar
- Eu sei. Eu também escutei. Mas você leu que vai chover?
Momento hippie descontrol
Um dia a forceps. Sem anestesia. Há três dias eu estava na beira da praia, os peixes mordiscando a minha canela e o cabelo cheio de sal e cachinhos. "Maiô quase de criança, branca contra o céu escuro, uma tarde num ancoradouro, lambido pela água quente de um dos oceanos."
Hoje eu ouço o barulho do ar condicionado. De volta ao escritório, começo baixar os 127 emails que estavam na caixa postal, numa conta mais ou menos assim: 98 problemas não resolvidos, 25 novos problemas e o resto de corrente para dar sorte, sem contar com a paida em power point que travou o computador.
O desespero é a primeira sensação. Depois, vários outros sentimentos merdas, inclusive a ingratidão com a própria vida que, nem sempre mas às vezes acontece, dá para ser generosa.
Há três dias os peixes mordiscavam a minha canela. E cá estou, já engatando a marcha primeira da reclamação. "Onde você esteve? Longe." Obrigada, obrigada.