UOL Estilo UOL Estilo






Meu perfil
BRASIL, Mulher, Portuguese

Neste blog Na Web

 Visitas  
 
A solidão é um pronto socorro pediátrico

"Ele também toma buscopan". "Ah, os meus peitos estao vazando porque eu tive gemeos." "Ah, o Felipe ainda mama também." Estou sentada na sala de espera de um pronto socorro pediátrico. Sou A MULHER INVISÍVEL. Vim parar aqui omo acompanhante de uma mãe amiga e de uma criança. Mas, como não pari, não sou ninguém. Nunca me senti tão não exisitindo na vida. Sou mais notada no metro de Alexanderplatz onde ninguém olha para ninguém. Me sinto menos enturmada aqui do que na revista do aeroporto Charles de Gaulle,  na hora em que me mandam tirar a bota e olham com horror meu passaporte brasileiro.

Sim, um dia depois de chegar de viagem (e dois meses não é pouco) fui parar em uma emergencia pediatrica do Rio de Janeiro (a criança passa bem, obrigada). Nunca me senti tão sozinha. E olha que eu nasci aqui. Nunca me senti tão ninguém. Não olharam na minha cara. A espera foi de duas horas e eu até que tentei me enturmar. Nao me deram trela porque eu nao carregava uma criança minha no colo. Eu não tinha identidade. 

"Mas elas te trataram mal', me perguntam quando eu narro o pesadelo. Sim, trataram da pior maneira possivel. Me desprezando. Negando a minha existencia. Assim como negam a das babás vestidas de branco. Pensei em gritar qualquer coisa. "Ei, sabiam que eu acabei de chegar de viagem, sabiam que eu conheci a Nina Hagen, sabiam que eu sou um ser humano.!!!! Ei! Alguém fala comigo PELO AMOR DE DEUS!.

Nada. A reles acompanhante não é notada. Nao me perguntaram nem se seu tinha filhos. A solidao foi tao desesperadora que at~e essa conversa insuportável valeria. Fiquei ali, recolhida na minha insignificancia do não existir. Clinica pediátrica, paran quem n~çao tem filhos, é uma experiência sartriana. O ser e o nada. Nunca me senti tão solidária a todas as babás vestidas de branco que habitam nosso país. (Nina Lemos)

:: Escrito por 02 Neurônio às 19h21